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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Canção do Bon Jovi

                                       
                       

Como se não bastasse ser o mês do cachorro louco, no dia da reunião mais importante da empresa naquele ano acordei atrasado e com uma dor de cabeça terrivelmente mortal. Não levantei da cama, saltei feito um ninja daqueles filmes de luta que a gente bem sabe que são mentirosos. Apesar que... naquele dia, eu fui tão ligeiro para o trabalho que nem pareceu real a minha chegada vinte minutos depois à empresa, arfando muito e já maldizendo aquele dia.
Tudo deu errado: levei uma bronca em público do diretor pelo atraso, fui notificado que não teria aumento de salário (e eu que já contava em trocar o carro naquele ano...), me estressei com um colega da mesa ao lado e meu computador resolveu travar quatrocentas mil vezes numa mesma manhã e mais quatrocentas mil vezes numa mesma tarde. Ah, também queimei a língua no cafezinho de depois do almoço.
Quatro horas da tarde, momento de voltar para casa. Pensei: Graças a Deus! Não aguento mais esse inferno!
Entrei no elevador assoviando uma canção do Bon Jovi, tamanha a minha alegria. A hora de ir embora era sempre o momento mais feliz do dia. Aquele emprego era um flagelo.
Entrei logo no carro e segui viagem. No caminho, fui desanuviando minha mente das espessas nuvens negras do trabalho. Quando meu céu mental estava lindamente azul e claro, novas nuvens negras surgiram do sudoeste do meu inconsciente: as mazelas familiares. Pensei: Vou chegar à casa e ter que ouvir os queixumes de Suzana (minha mulher) e suportar as traquinagens das crianças por uma ou duas horas até o momento de dormir.  Parei no sinal e fechei os olhos por alguns segundos. Só conseguia ver o rosto de Suzana gritando e esbravejando por tudo e por nada. Caramba! Por um momento eu quase me esqueci da consulta marcada com Dr. Almeida, meu cardiologista. Que dia seria mesmo? Terça, quarta... Acho que quarta. Sim, com certeza quarta! Mas pera aí... Maldição!
Mais uma vez eu havia perdido a consulta, mas tudo bem. Eu poderia remarcá-la como das outras vezes.
Mal cheguei à casa e já ouvi o alarido que vinha de dentro. As crianças brincavam de índio e estavam realmente convencidas de que a sala era a Floresta Amazônica. As centenas de folhas secas que pegaram do quintal e jogaram sobre os sofás e o tapete comprovavam isso. Atrás delas, Suzana gritava loucamente segurando uma colher de pau, sem sucesso. Quando deu por mim, foi logo pedindo, ou melhor, gritando auxílio. Ignorei, fui direto para o banho. Aquele sim, era um momento singular e eu até assoviei Bon Jovi de novo. Uma hora depois quando saí, já era hora do jantar. Comemos em silêncio como de costume. Estava tudo na mais perfeita harmonia: eu cansado e estressado do trabalho, Suzana revoltada comigo e com as crianças e estas chateadas porque não queriam parar de brincar para comer legumes.
Após jantar, sentei no sofá e assisti ao telejornal. Nada de novo: violência e mais violência, além de corrupção política. Levantei e fui para cama. Deitei com pesar, estava muito cansado. E assim concluí mais um dia, onde eu fingia ter um trabalho, uma família, uma casa, enfim... uma vida!


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2 comentários:

Licenciandas em Pedagogia disse...

Nossa, Aline! Gostei muito do texto. Em muitos momentos fazemos assim, exatamente como este personagem que vai deixando a sua vida passar como se fosse expectador e não o autor de suas ações. Realmente quando nos mostramos agradecidos, a vida nos retribui muito mais coisas boas do que quando amaldiçoamos o dia. Nossa língua, ações e coração ajudam a conduzir o caminho que construímos e, basta que escolhamos se vamos bendizer ou amaldiçoar nossos dias. Prefiro bendizê-los com a ajuda do Pai.

Licenciandas em Pedagogia disse...

Nossa, Aline! Gostei muito do texto. Em muitos momentos fazemos assim, exatamente como este personagem que vai deixando a sua vida passar como se fosse expectador e não o autor de suas ações. Realmente quando nos mostramos agradecidos, a vida nos retribui muito mais coisas boas do que quando amaldiçoamos o dia. Nossa língua, ações e coração ajudam a conduzir o caminho que construímos e, basta que escolhamos se vamos bendizer ou amaldiçoar nossos dias. Prefiro bendizê-los com a ajuda do Pai.