domingo, 8 de outubro de 2017
Fadas
Quando criança, acreditava em fadas. Às vezes, ao cair da tarde, percorria o jardim à procura de alguma. Corria por entre as árvores certa de que a qualquer momento surpreenderia uma delas. Mas nunca as vi. São espertas, pensava. Sabem bem como se esconder ou desaparecem como num passe de mágica ao sentirem a minha presença.
Certa vez li em um livro cor de rosa que as fadas gostavam de habitar em bosques, florestas e atuavam como guardiãs das árvores e das flores. O autor, muito convicto em suas palavras, jurava já ter visto centenas delas desde a sua infância. Isso me deixava um tanto ressentida. Também queria vê-las, conversar com elas, voar como só elas voavam. Por que não as via? Haveria uma explicação convincente? E assim eu ficava, horas a fio perdida em meus pensamentos. Taciturna e completamente reflexiva, perguntando-me o porquê das fadas nunca se revelarem a mim. Quando anoitecia, voltava para casa meio triste e um tanto magoada. Isso logo passava porque sonhava com elas e nos sonhos elas sempre apareciam: lindas, coloridas, asas transparentes voando para todo lado. Que alegria eu sentia! Como era bom ficar entre as fadas! Essa sensação maravilhosa durava a noite toda e no dia seguinte já não havia mais mágoa. Amanhecia e lá ia eu novamente atrás delas.
O tempo passou, cresci e esqueci-me das fadas. Assim, ao invés de percorrer jardins e bosques à procura delas, percorria longos corredores de grandes edifícios em busca de emprego. Esqueci a magia e passei a me preocupar com a lógica que tanto desgraça a vida dos que se dizem adultos...
Mas hoje, ao contemplar a imagem de uma fada na dela de meu computador, fiquei nostálgica. Um calorzinho aqueceu profundamente o meu coração. Era como se a garotinha de oito anos voltasse à vida, risonha e plena de esperança. Então, pela primeira vez, compreendi que as fadas sempre se revelaram, mas de um modo diferente. Quando semeamos o amor e lutamos para defender as pessoas e a natureza, estamos sendo fadas sem saber. Quando damos de comer a quem tem fome, ajudamos um idoso a subir no ônibus ou visitamos um doente no leito de um hospital: tudo isso as fadas fazem, só precisamos é estar com o coração aberto para perceber.
Hoje já não mais desejo vê-las nem ouvi-las. Não como antes. Agora sei, com toda a convicção que há no universo, que fui fada a minha vida inteira.
Line S2
4:59 PM
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Aline Fernandes
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